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Artes e espetáculos

Renegados

Organizador da festa "Carlos Capslock" em performance

Organizador da festa “Carlos Capslock” em performance

São Paulo é a capital mais movimentada da América Latina. A metrópole abraça as mais diversas culturas, que vem de todo canto do mundo construir a sua história. É aqui onde imigrantes encontram seu lar, onde os mais subestimados fazem fortuna. E claro, é essa a cidade onde as ideias se tornam realidade e são ouvidas.

Entretanto, o paraíso não é para todos. E os que não são dignos de nele entrar ou os que, por alguma razão maior, não conseguem atingir o sucesso vagam sem rumo e sem objetivos pela cosmópolis. Esse é o início de todos os nossos problemas: violência, desigualdade, ignorância, hipocrisia e preconceito. Os fantasmas sociais paulistanos são muitos, seus nomes são conhecidos por todos e eles assombram nossa querida cidade dia após dia, noite após noite.

Lua em SP

Lua na noite de São Paulo

É no submundo da capital em que festas começam a acolher os renegados da sociedade. Pessoas que durante o dia levam vidas “normais”, em empregos “normais” com comportamentos “normais”, mas que, durante algumas noites do mês, se transformam – em personagens fictícios, coisas extravagantes ou até nelas mesmas.

Por algumas horas seu “fracasso” (COM ASPAS BEM GRANDES SEGUIDAS DE UM PARÊNTESES EM CAPSLOCK) não importa, suas frustrações são insignificantes e você é a pessoa mais bem-sucedida do mundo. É assim que me sinto quando saio.

Porém, a cena underground ainda é muito discriminada e marginalizada pela sociedade. É verdade que as baladas eletrônicas acolhem a comunidade LGBT com muito orgulho, desde a década de 80, quando as cenas house e techno começaram a ganhar forma nos EUA. Sim, o consumo de drogas nesses ambientes é alto, em muitos casos. O som que toca nas festas pode não ser do agrado de muita gente, e os frequentadores podem não ter os “papos” mais agradáveis para um ambiente de comemoração, tocando em assuntos que são verdadeiras feridas da nossa frágil e domesticada comunidade.

Mesmo assim, vale a pergunta: por que esse refúgio encontrado por quem mais é perseguido pelo coletivo acaba atraindo tanto ódio, enquanto o falso moralismo destrói nossa sociedade?

Com alto teor de críticas sociais e protestos políticos

Festa com alto teor de críticas sociais e protestos políticos

Hoje, os bailes funk se consolidam a partir de música de baixa qualidade e valores imorais por uma indústria que se fortalece na ignorância e só cresce. Já a cena conceitual do país padece e tenta sobreviver com migalhas. Limita-se agora à capital paulista, uma das poucas cidades do país onde há um mínimo espaço para o underground.

As pessoas acham que se submeter à violência moral por espontânea vontade é algum tipo de revolução. Dançar ao ritmo de letras agressivas virou um tipo de “protesto”. Enquanto isso, quem realmente pode fazer alguma coisa para mudar a situação das minorias em relação à sociedade está desamparado. A cena não é ouvida e quem quer realmente ajudar fica de mãos atadas perante o descaso e a mútua ignorância. Pelo visto, os fantasmas de São Paulo estão livres para continuar assustando nossa gente.

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