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Saúde e Ciência

Plantar destruição e colher fome

Imagem tirada por Alex Steijntjes, retratando o desmatamento da natureza

O desmatamento da natureza. Foto: Alex Steijntjes

Aumentamos a produtividade agrícola para obter mais alimentos e acabar com a fome no mundo. No entanto, degradamos o solo, alteramos o clima global e mais de 10% da população mundial ainda passa fome

Em 1966, Willian Gown, em uma conferência, chamou de Revolução Verde o movimento “feito à base de tecnologia, e não do sofrimento do povo”. Mas será mesmo que o povo não sofreu após essa mudança? A Revolução Verde criada em 1940, nos Estados Unidos, proporcionou tecnologias de desenvolvimento de sementes, adaptação do solo através de fertilizantes químicos e produção de máquinas para otimizar o trabalho na lavoura. Com isso, conseguiu-se maior eficiência na produção agrícola, aumentando a produção de alimentos. Segundo o engenheiro agrônomo Fábio Faleiro, pesquisador de Genética Molecular de Plantas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em entrevista cedida ao Globo Ecologia, a Revolução Verde conseguiu quadruplicar a produção de trigo no México na década de 50.

Como consequência, a modernização no campo alterou a estrutura agrária, a biodiversidade, o solo, o clima e a nossa alimentação. Pequenos produtores que não conseguiram se adaptar às novas técnicas de produção não atingiram produtividade suficiente para competir com grandes empresas agrícolas e se endividaram perdendo suas propriedades. Sementes geneticamente modificadas alteraram a diversidade de espécies, as máquinas e arações profundas e sucessivas alteraram a temperatura e compactação da terra, os fertilizantes desequilibraram a relação química de nutrientes do solo e os agrotóxicos modificaram o clima e causaram doenças por meio dos resíduos nos alimentos.

Está claro hoje que as políticas de crescimento econômico no mundo foram um erro, e causaram um desequilíbrio na humanidade. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) estima que o número mundial de habitantes vai superar os 9 bilhões em 2050. Segundo o órgão internacional, a produção mundial de alimentos precisaria aumentar em 60% para assegurar o equilíbrio da segurança alimentar que, com as mudanças climáticas, será um desafio alimentar ainda maior. Atualmente, quase 750 milhões de habitantes sofrem de desnutrição no mundo, isso é quase 10% da população mundial.

Para Alan Bojanic, representante da FAO no Brasil, “precisamos de uma agricultura mais adaptativa, diferente, que seja sustentável, ambientalmente amigável e essa agricultura precisa de muita pesquisa. Precisamos de mais variedades de alimentos que aguentem as variações de precipitação, de calor, de frio, problemas de enchente. Uma agricultura adaptativa a essas mudanças climáticas”. Para Bojanic, é importante também, reduzir o desperdício, com melhor colheita, armazenagem, embalagem, transporte, infraestrutura e comércio. Além, claro, de melhor consumo por parte de cada um de nós. Sabe-se hoje que 1/3 dos alimentos produzidos são desperdiçados, de acordo com estudo publicado pela FAO.

Os alimentos se tornaram uma mercadoria e se nós não podemos pagar por ela, muitos preferem jogá-la fora a dar para quem precisa comer. Os cereais, com produção crescente ano a ano, de acordo com estudo do Boston Consulting Group, não são produzidos apenas para alimentar as pessoas, mas também os carros, como os agrocombustíveis, e os animais, produção que necessita de mais energia e de recursos naturais do que se, com esses cereais, a pessoas fossem alimentadas diretamente. Produz-se comida, mas uma grande quantidade dela não é para matar a fome. O sistema de produção, distribuição e consumo de alimentos está organizado unicamente para dar dinheiro para aquelas empresas do agronegócio, que monopolizam o mercado. Essa é a causa da fome.

Estamos plantando a fome e a destruição de nossa espécie e planeta. E agora? O que podemos fazer?

Já existem estudos e práticas de agroecologia familiar que provam ser possível fazer uma agricultura sustentável que respeite a diversidade de espécies de cada região e clima; promova a nutrição do solo através de plantios consorciados e utilização de adubos verdes e secos; respeite a geografia de águas, florestas e terras. Além de ecologicamente correta, essa atividade inclui a mulher e o jovem na lavoura e produz segurança alimentar, pois, sem veneno, sem adubo químico e utilizando sementes nativas, o alimento é mais saudável. A grande questão é se essa agricultura é capaz de produzir alimentos para os 800 milhões de pessoas que estão subnutridas.

Segundo o relator especial das Nações Unidas para o direito à alimentação, Olivier de Schutter, em seu relatório A agroecologia e o direito à alimentação, “os pequenos agricultores poderiam duplicar a produção de alimentos mundial em uma década, caso utilizassem métodos produtivos ecológicos” e acrescenta: “faz-se imperioso adotar a agroecologia para colocar fim à crise alimentar e ajudar a enfrentar os desafios relacionados com a pobreza e a mudança climática”.

Para isso é necessária uma grande mudança de cultura coletiva, individual e política. Partindo de hábitos alimentares de cada um de nós, como o consumo excessivo de alimentos que são jogados no lixo, o consumo de carnes que provocam aumento do CO2 na atmosfera, e o consumo de processados; até políticas públicas de incentivo à agricultura familiar, como reforma agrária, acesso a crédito com baixos juros, investimento em logística e infraestrutura, como estradas, transporte e armazenamento de alimentos agrícolas coletivos na zona rural.

Precisamos de uma nova Revolução, a Revolução Ecológica Familiar. Assim quem sabe deixaremos de plantar fome e destruição, passando a plantar verde e saúde para o planeta e para nós!

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